Avançar para o conteúdo principal

Os filhos de Mussa Mbiki - José Pinto de Sá

 


Vi pela primeira vez o nome de José Pinto de Sá lendo seus textos no diário português Público, enviados de Maputo. Leio agora que, nascido na Beira (Moçambique) em 1948 (o mesmo ano de David Mestre em Angola), andou sete anos pela Europa e regressou a Maputo em 1974. Escritor multifacetado, para além da carreira de jornalista foi também ficcionista, crítico literário, poeta, cronista, encenador e dramaturgo, estando na formação do conhecido grupo de teatro Tchova Xita Duma, em 1985, em Maputo.

Apesar do reservado convívio que mantivémos em Évora, nunca tinha lido nenhuma peça literária de José Pinto de Sá. Mas antes de o conhecer notei que pulsava, nos artigos de jornal, um veio mais fundo que não o de mero relator de notícias. Por oferta me chegou às mãos agora, em pequeno formato, um conjunto de cinco contos intitulado Os filhos de Mussa Mbiki, saído em 2013.

O livro foi publicado pela Companhia das Ilhas (com sede no Pico, Açores), em design cuidado, ilustrações minuciosas e originais, mais um retrato do autor na badana (feito por Ivone Ralha). O retrato merece atenção, porque a sua densidade psicológica permite formar uma ideia precisa da maneira como olha para o mundo: bem-disposto mas incisivo (aquele olhar que fixa o ponto preciso).

As duas características vemos ao longo das suas 43 páginas. O que chamamos bem-disposto se transforma, nessas linhas, em saudável ironia. O caráter incisivo se revela por retratos centrados em pontos essenciais, quadros sugeridos por traços sintomáticos, narrações curtas e cruas, numa linguagem objetiva, poucas vezes intelectual, entre português de Moçambique e português de Portugal (ou só língua portuguesa), que revela ao mesmo tempo um leitor atento, bem nutrido, um contador de estórias sem contemplações e um escritor sensível ao cariz cortante da linguagem quotidiana.

Cada conto está muito bem estruturado, encaminhando-nos para um fim que remata com uma espécie de chave de ouro, clímax de emoção e decisão: a espécie tiro certeiro. Parece que todo o relato vai captando e ordenando os elementos necessários para o disparo e, quando o alvo está bem definido, sai o tiro. 

O conjunto dos contos está igualmente bem sequenciado. Ele parece determinar-se por um critério histórico-político. O primeiro se passa durante a guerra anticolonial, exemplificando-a com uma cena típica da lógica impiedosa que as guerras acarretam, quase explicando que, por elas, a crueldade é inevitável, nelas o assassino horrendo pode ser um homem cheio de medo. A sequência nos leva depois pelos tempos do partido único, pelo mundo amoroso entre cooperantes (em sentido lato) no meio dos tiroteios, pelo reacender da guerra (agora entre ‘irmãos’ que se estranham), pela degradação física e moral, pela decadência e ineficácia da autoridade espelhada no lento erodir de tudo o que um dia ‘funcionara’. No fim, a breve biografia de uma prostituta resume a história do país independente – ela também, essa quase autobiografia, terminando com o mesmo remate certeiro, que fecha a narrativa e o livro.

Os cenários são desenhados (sem gordura de pormenores) com a nudez mítica dos documentários. O que está devastado é mostrado assim; o que está corroído é mostrado assim; o abandonado igual – e por aí vai. A morte se torna quase corriqueira em certos momentos – e assim desaparece. Dolorosa quando ressurge ainda um sentido mais fundo de humanidade, de dignidade humana – e assim se estampa, no rosto, na decisão, no gesto, numa frase da personagem ou do narrador.

Para quem?

Para quê?

Ainda vale a pena contar isso?

Há quem pense, à partida e à chegada, que não. Formam-se fileiras de jovens ansiosos por mostrar as suas habilidades ao arrastar das tosses dos idosos medíocres compondo máscaras de ‘mais velhos’ muito sábios. Em cenários locais, toda essa pretensão vazia e a correspondente literatura acrítica – ou só 'crítica' por imitação de clichês – age no pressuposto de que isso é tudo uma questão de convenções e nós fazemos as nossas. Porém, em sua pedra bruta e na sua voz impiedosa, o que este livro nos diz é que isso foi a nossa vida.


 


Comentários

Mensagens populares deste blogue

José da Silva Maia Ferreira - uma biografia atlântica - resumo e notícia

  https://www.amazon.com/Jos%C3%A9-Silva-Maia-Ferreira-Portuguese-ebook/dp/B0CLGDRQ4N https://www.amazon.com/Jos%C3%A9-Silva-Maia-Ferreira-Portuguese-ebook/dp/B0CLGSCYWX?ref_=ast_author_dp Ao fim de muitos anos de pesquisa, da qual fui dando sinais aqui, fragmentários sem dúvida, publiquei finalmente a biografia de José da Silva Maia Ferreira. Como se sabe, t rata-se do primeiro poeta angolano a publicar um livro em Angola, entre o fim de 1849 e o começo de 1850. O título é bem conhecido: Espontaneidades da minha alma: às senhoras africanas .  O que publiquei foi uma extensa biografia centrada na pessoa do poeta e nas pessoas que o antecederam, que o acompanharam, com quem se relacionou. Pelas relações pessoais e sociais estudadas acabei fazendo igualmente um esboço do que foram várias das comunidades atlânticas onde se falava também o português: a angolense (Luanda e Benguela, principalmente), a brasileira (Rio de Janeiro e Recife sobretudo), a portuguesa (Lisboa e Porto), a ...

Bocage em Angola - no século XIX

Por uma santa queres tu passar, E mal sabes que no mundo exaltar Honra e virtude, é uma peta e engano, Como em bom verso disse o divo Elmano (Cordeiro da Matta, «A uma Lucrécia», Luanda, 1887)

Assis Júnior e o segredo da morta - relações intertextuais e biográficas

Um dos patronos da literatura angolana e defensor acérrimo dos interesses legítimos dos filhos da terra, António de Assis Júnior foi, nesse contexto, hábil advogado. Ele veio na sequência de outros que se destacaram durante o século XIX. Mas é particularmente sugestiva a sua comparação com outro notável fundador da ficção angolana, Pedro Félix Machado. O advogado e poeta de Sorrisos e desalentos publicou uma obra baseada na defesa que fez do comerciante Eduardo Braga (Minuta do Agravo do Despacho de Pronúncia de Eduardo Braga). Braga fora acusado - segundo parece, injustamente - de estar ligado à famosa revolta do ossoma Ndunduma (Bié, 1890), contra as autoridades coloniais. Assis Júnior também nos legou uma obra resultante, em grande parte, da sua atividade como advogado. Envolvido na defesa jurídica dos filhos da terra expoliados, acabou sendo preso e sofrendo, ele próprio, em 1917, as arbitrariedades que denunciava. Deixou-nos um relato de todo o processo, o qual se tornou mais um...