Em 1642, como referem os anais das histórias da Companhia de Jesus, era publicado o primeiro livro em que um angolano (melhor: alguém nascido no que hoje é Angola) teve participação.
O facto foi referido por muito poucos pesquisadores ligados aos estudos literários, até porque se tratava de um catecismo e não de um livro de poemas. O pouquinho que sabíamos, nos estudos sobre a formação de uma comunidade literária em Angola, se resumia ao nome do nosso antepassado (o padre António do Couto), seus possíveis ascendentes e local de nascimento dos três (pai, mãe, filho), sua biografia missionária, a biografia do autor do catecismo (o padre Francisco Pacónio) e o nome da financiadora da obra que, segundo o próprio livrinho, perdera um filho dedicado à Companhia. Resumi o que sabia no meu livro Notícia da literatura angolana - e era ainda pouco, limitando-me a confrontar a leitura das fontes históricas a que tive acesso na década de 1990.
O nome dela era Isabel de Oliveira Corte-Real. Não sabíamos de quem se tratava. Para compreender todo o ambiente no qual surgiu a obra e nela interveio o nosso bom padre Couto, fui pesquisar algumas fontes históricas e o que descobri deixou-me surpreso.
D.ª Isabel de Oliveira Corte-Real era, nem mais nem menos, viúva de um capitão espanhol que em Luanda desembarcara a serviço do rei português e por ali ficara negociando escravos também. Tinha o nome de João de Vilória. Uma viúva e mãe desconsolada? Não. O marido morreu e ela se tornou a maior negociante de escravos da praça de Luanda no seu tempo, comerciando com os mais variados portos americanos e conseguindo no interior da colónia posições e vantagens que a destacaram também. Parece que tinha, segundo o relato de alguns negreiros americanos (ou seja, do continente americano), um bom trato (salvo seja: menos mau) com os escravos e relações cordatas com os seus clientes. Muitos preferiam, por esses motivos (eventualmente outros), transacionar com ela na vez de todos os outros negreiros da praça de Luanda, classificados como grosseiros, boçais, arrogantes.
Os seus filhos vivos - e sobretudo um deles - ocuparam lugares de relevo no exército e na sociedade da colónia, sendo por exemplo vereadores eleitos e reeleitos. "Um deles" era Francisco da Vilória Pinto, vereador eleito da Câmara de Luanda em 1625 e 1626, nomeado capitão de Cambambe em 1627, ainda foi juiz ordinário, proprietário de terras no Sequele, ouvidor geral até 1639. Com este e outros exemplos, a família manteve, durante duas ou três décadas (suponho), um ascendente sobre a pequena colónia que era de todo imprevisto em uma mulher e uma financiadora de catecismos. Ela foi, em larga medida, uma antecipadora de D.ª Ana Joaquina dos Santos e Silva, que no século XIX chegou a ter a maior fortuna de Angola, com casa também em Pernambuco e nos legou o palácio chamado pelo seu nome, em Luanda.
Mais uma vez - em futuras mensagens direi porque escrevo "mais uma vez" - o tráfico de escravos e a formação do sistema literário angolano, bem como a implantação da escrita no país, entrecruzaram-se por essas ironias da História que nos traz, por vezes, na própria essência do veneno algum germe que o eliminará.
Resumi a pesquisa que fiz em um Encontro realizado em Porto Alegre, Brasil, o ano passado. Saiu desse Encontro um bom e sólido livro de Atas sobre A ação global da Companhia de Jesus: embaixada política e mediação cultural.
Felizmente o livro veio a público em linha e para consulta aberta, gratuita. A edição ficou ao cuidado, não só da organização do Encontro, mas também da editora Oikos. Está disponível nesta hiperligação com o meu resumo de pesquisa.
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