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Nota (breve) sobre a inquietação estética na poesia de Cordeiro da Matta


Joaquim Dias Cordeiro da Matta foi, no geral, um epígono do ultrarromantismo em Angola. Talvez por idiossincrasia, ou seja: pelo seu temperamento particular. Daí que deparemos, entre os seus versos, com muitos lugares-comuns, ao nível do léxico, das figuras de estilo, das imagens, das soluções estróficas. 

Outro motivo para que a sua lírica assim fosse prende-se, provavelmente, com as limitações do meio para o qual produzia. Provavelmente, a maioria dos seus leitores eram... leitoras. Leitoras e um que outro curioso das letras, por vezes arriscando rimas num álbum, enfim, um público diletante quando muito e não no sentido etimológico. O seu imaginário estava preenchido por novelas e peças de teatro lamechas, típicas da época. Perante esse público, vários dos seus poemas até são demasiado... filosóficos, desinteressantes. O que se pretendia ler era um poema apelando muito diretamente às emoções básicas, o conteúdo veiculado por uma linguagem simples, acessível e, tanto quanto possível, o próprio sentimento não saindo muito de um curto leque de emoções conhecidas até à exaustão. 

Apesar disso, vários poemas de Cordeiro da Matta nos dão sinal de uma inquietação estética acentuada. Num meio diferente, com um público mais exigente, ele teria sido um poeta inovador ou, mesmo, revolucionário. 

A sua inquietação estética nota-se bastante nas soluções formais de alguns poemas. Nos vários aspetos envolvidos: métrica, ritmo, distribuições rimáticas, tipos estróficos. Compôs peças estruturalmente estranhas para a época e o meio, identificando-se nisso com o simbolista brasileiro João da Cruz e Sousa. Parece que por coincidência, mas o facto é que ambos chegaram a ter formulações métricas, rítmicas e estróficas muito parecidas e que não vislumbrei nos restantes poetas lusófonos da época. 

Outro sinal da inquietação estética de Cordeiro da Matta está no uso que faz, uma vez apenas, da tipografia. Já falei disso em outras ocasiões (por exemplo no primeiro volume de Kicôla, editado pela Mayamba). Ele realça, por itálicos, duas palavras que definem aquela que põe no título, de maneira que o poema, para além do conteúdo explícito (e vulgar) tem um segundo conteúdo, ao qual se acede como que por um logogrifo ou adivinha, juntando o título com as palavras em itálico que o definem: Felicidade - perfeita realidade. 

A sua atenção ao concreto das palavras não foi casual, embora pouco a manifestasse. 

Sensivelmente a meio do poema «Tédio» (estrofe quinta, sendo sete no total) encontra uma solução inovadora para a rima: 

"A alma se invade
d'imensa tristura!
Quem esta amargura
dissipar-me há-de?!"

No fim de um poema longo, escrito no Tombo a 23 de Novembro de 1881 («A um analfabeto»), a última secção dá-nos bem conta dessa particular sensibilidade, associada a uma ironia que muitas vezes cultivou. Junta-lhe ainda um toque da variante local (e brasileira) do português, pela colocação do clítico no terceiro verso e deixa-nos com a impressão de que, realmente, ele podia ter ido muito mais longe. Transcrevo: 

"Oh! descoco,
oh! audácia,
onde viu-se
tal filáucia!

Oh manes
dos sábios
     surgi
     e ri
do mísero!
D'ele
     oh!
tende
     dó...

(veja-se como até o avanço dos versos pode ser significativo, principalmente nos versos 3-5 da segunda estrofe, reforçando a incidência na tónica [i]).


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